O Outro Cinéfilo

Friday, March 24, 2006

"Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain" de Jean-Pierre Jeunet (2001)

Quem consegue resistir a um olhar assim?

À falta de bons filmes actualmente no cinema (pelo menos que eu tenha visto até agora), achei por bem escrever sobre um dos meus filmes favoritos, dos poucos filmes que eu alguma vez achei roçar o limiar da perfeição.
"O Fabuloso Destino de Amélie" como foi intitulado por cá, conseguiu-me conquistar, o que é um grande feito, especialmente considerando ser um "feel good movie", coisa que eu normalmente detesto, dada a minha preferencia por filmes muito dramáticos. É uma obra-prima em muitos aspectos, tendo conseguido até 5 nomeações para os óscares (embora não tenha ganho nenhuma, injustamente), um feito considerando que é um filme francês.
Não é muito difícil encontrar o filme por aí em DVD a preços muito baixos, sendo um muito bom investimento. Quem não tiver, procure já numa loja aí perto.


O filme conta a história de Amélie Poulain, uma tímida jovem parisiense, que trabalha num café em Montmartre. Amélie é muito bondosa mas muito discreta, muito introvertida. Aprecia os mais infimos pormenores da vida, com todas as suas ironias. No dia em que morreu a princesa Diana, a sua vida mudará, não por causa da princesa de Gales, mas por um achado que faz acidentalmente na sua própria casa, uma caixa que um antigo inquilino do seu apartamento escondeu quando era criança, para que alguém no futuro a encontrasse. A partir daí, Amélie decide procurar a pessoa que escondeu essa caixa, para lhe devolver a caixa, para o fazer mais feliz. Amélie decide aliás, dar um novo rumo à sua vida, fazer o máximo de pessoas à sua volta felizes, nem que fazendo apenas pequenas coisas, de modo a dar um objectivo para a sua vida. Ao longo da sua jornada, encontrará personagens muito peculiares, entre elas o amor da sua vida.
Grande parte das personagens, principais ou mesmo muito secundárias, são-nos apresentadas pelo narrador, que nos explica os peculiares gostos e ódios de cada um, numa introdução extremamente agradável e divertida, um pormenor digno de nota.

Esta pérola de Jeunet, tem um argumento que não pode ser levado muito a sério. Amélie age de uma forma surreal muitas vezes, as suas acções são em muitas situações absurdas, enquanto levadas a sério. A sua personagem é de tal modo boa-samaritana, que os mais cépticos irão criticá-la facilmente. Apenas se virmos o filme de animo leve, percebemos o seu poder, e apreciamos muito mais o humor subtil ao longo do filme, humor esse que não precisa de nos levar às gargalhadas para nos por em muito boa disposição. É, como eu disse, um "feel good movie", não vale a pena procurar significados muito profundos.
A banda sonora, feita por Yann Tiersen assenta incrivelmente bem, com os sons tipicamente franceses (o acordeão e afins) a nos aproximarem ainda mais daquele ambiente bairrista parisiense. Este ambiente é também muito bem retratado nos cenários do filme, parecendo que estamos mesmo em Montmartre (mesmo quem nunca esteve em Paris, como eu, vê ali uma representação muito credível). Além disto, a cinematografia em tons de sépia é muito agradável, dando um ar mais rustico aos cenários.

Fosse o filme apenas Audrey Tautou penso que ninguém ficava incomodado. O seu sorriso é apaixonante e com o seu olhar domina-nos ao longo do filme. Expressa muito facilmente toda a boa disposição de Amélie, com um ar sempre muito tímido, de quem nos esconde um segredo qualquer. Audrey Tautou torna Amélie uma das personagens mais adoráveis (senão a mais adorável) que se viu no cinema nos últimos anos.
Embora Audrey Tautou seja fantástica, os restantes membros do elenco não deixam de ser muito bons. Todos eles dão muita profundidade à mais pequena das personagens. Enquanto o mais principal dos actores secundários, Mathiew Kassovitz, no seu papel de Nino Quincampoix, o homem por quem Amélie se irá apaixonar, faz um muito bom papel, não tão introvertido como Amélie, mas ainda assim com uma expressão algo tímida.

Pontos Fortes: Audrey Tautou é apaixonante enquanto Amélie; o filme é muito bem-disposto, anima toda a gente; a banda sonora; a cinematografia; entre tanta coisa...

Pontos Fracos: Não serve para cépticos.

Nota Final: 10/10

Friday, March 17, 2006

"Tsotsi", de Gavin Hood

A África do Sul, em modo tocante

"Tsotsi" foi o vencedor do óscar de melhor filme estrangeiro na cerimónia de há algumas semanas. Muitos dizem ser injusto, perante "Paradise Now", o polémico filme palestiniano, mas na minha opinião, embora ainda não tenha visto o tal filme, por um filme não ser muito polémico, não quer dizer que seja bem tocante. "Tsotsi" não é, nem de perto nem de longe, dos melhores filmes que eu já tenha visto, mas não deixa de ter o seu encanto, com uma história muito crua.


O filme conta a história dum jovem por volta dos 20 anos, a quem chamam por Tsotsi (uma espécie de calão sul-africano para gandulo), líder de um pequeno gang. Tsotsi mora num enorme bairro de lata de Joanesburgo, cidade sul africana onde o seu gang actua, roubando sem a minima decência para poderem sobreviver, chegando a matar para ver o seu objectivo logrado. Tsotsi é frio, sem coração, não olhando a meios para obter dinheiro. Até que um dia, ao assaltar um carro, disparando contra a dona do carro, se apercebe, ao fugir, que estava um bébé dentro deste. Este bébé irá mudar a vida de Tsotsi, que não tem coragem para se livrar dele, obrigando Tsotsi a aprender a ganhar um coração.
Embora sem grandes mestrias, o filme mostra-se muito cru, fazendo, através da fotografia um retrato muito cinzento daquela que é a verdadeira África do Sul, com toda a sua pobreza extrema, num cenário muito deprimente. A banda sonora, no entanto, embora seja música tipicamente ouvida naquelas zonas, revela-se irritante em grande parte do filme.

Presley Chweneyagae, um jovem actor inexperiente nestas andanças, ocupa o ecrã grande parte do filme enquanto Tsotsi. Não digo que seja uma representação doutro mundo, mas o actor tem muito potencial. Consegue dar a Tsotsi imenso medo nas suas decisões mais críticas, uma expressão muito nervosa durante os crimes e uma certa incapacidade de agir proveniente duma infancia dificil, com reacções instintivas nas situações mais complicadas. O restante elenco, embora sem grande relevancia para o filme, mostra-se apenas razoável.

Pontos Fortes: O jovem actor principal, com muito potencial. A crueza da fotografia.

Pontos Fracos: A banda sonora irritante.

Nota Final: 7/10

Friday, March 03, 2006

"Good Night, and Good Luck.", de George Clooney

Preto no branco

O segundo filme de George Clooney foi recebido com uma grande ovação pela crítica e pelo público em geral. E não é para menos. "Good Night, and Good Luck." é a prova que ainda se fazem filmes sóbrios, dando uma lição de como fazer um filme político aos vários filmes do género que têm surgido nos últimos anos.

O filme relata a época da "caça às bruxas" nos E.U.A. dos anos 50, onde o senador McCarthy instaurou um clima muito inseguro, com as suas perseguições a tudo quanto fosse comunista, parecesse comunista, conhecesse comunistas, basicamente considerando todos os que fossem contra ele como comunistas e baseando-se em meros rumores para as acusações. Os jornalistas recusavam ir contra o senador, temendo serem também acusados de comunistas, tornando difícil o seu trabalho. Descontente com a situação, Edward Murrow, um jornalista da CBS, lidera a equipa de "See it Now" (o programa que apresenta) numa investida contra esta farsa, tendo a coragem de, contra a vontade dos seus superiores, fazer uma reportagem sobre um caso individual de perseguição: um homem acusado de ser comunista, por o seu pai ter supostamente algumas ligações ao Partido Comunista, sendo acusado apenas com base em supostas provas que estão num envelope a que ninguém teve acesso. Como seria de esperar, as reacções não tardarão a chegar, e seguir-se-ão vários ataques ao jornalista e à equipa do programa.
O argumento de "Good Night, and Good Luck." está muito centrado em Edward Murrow, o que para um filme político talvez pudesse ser uma má opção. Mas neste caso, funciona bem, pois o destemido jornalista embora nunca recue, depois de todos os seus programas, reflecte por breves momentos sobre o que acabou de fazer, talvez receando um pouco os resultados. Os restantes elementos da equipa do programa, não são em nada personagens prescindíveis, pois terão os seus momentos relevantes ao longo do filme.
A nível técnico, primeiro o mais óbvio: a fotografia. O preto e branco cai na perfeição, dá uma sensação ainda mais sóbria ao filme. Note-se já agora, que as imagens que surgem do senador McCarthy e das reportagens são as verdadeiras imagens gravadas na altura. Isto irá contribuir muito para tornar o ambiente o mais "anos 50" possível, juntamente com a redacção da CBS fielmente recriada.
O silêncio que acompanha quase todo o filme assenta bem para o já referido aspecto sóbrio do filme, surgindo simplesmente algumas sequencias de jazz, quase como separadores de algumas partes da história.
David Strathairn praticamente leva o filme às costas. "Good Night, and Good Luck." é especialmente centrado na sua personagem e Strathairn não desilude. O seu Edward Murrow tem imenso carisma, mostra-se muito dedicado às suas causas, com o olhar de quem não está disposto a desistir. Claramente confiante em si mesmo sempre que defende a sua posição, Strathairn olha fixamente para nós (enquanto estamos no papel de telespectadores da altura) enquanto diz as verdades que apenas Murrow e a sua equipa tinham coragem para dizer. Nos pequenos momentos após cada um dos programas, Strathairn, sem precisar de palavras consegue transmitir-nos toda a preocupação que passa pelo jornalista.
O restante elenco também não desilude. George Clooney faz o papel de Fred Friendly, o produtor do programa, que irá estar mais claramente do lado de Edward Murrow. Muito calmo, Clooney torna Friendly um homem relaxado, muito sensato. Os outros actores também não estão nada mal, dando um ar muito próprio a cada uma das personagens.
Pontos Fortes: David Strathairn numa excelente representação. A escolha do preto e branco. A sobriedade do filme em geral.

Pontos Fracos: Demasiado curto, fica a sensação que se podia explorar um pouco mais.

Nota Final: 9/10

Sunday, February 26, 2006

"Capote", de Bennett Miller

Escrita a sangue frio

Muito se fala de Philip Seymour Hoffman como o vencedor mais que certo do óscar de melhor actor pela sua representação de Truman Capote. E aí acaba o que se ouve sobre este filme. No entanto, Capote não é só Philip Seymour Hoffman, sendo até muito bom no seu todo. Reduzir o filme ao actor principal seria um grave erro.
"Capote" é um filme biográfico que relata como Truman Capote, um dos maiores escritores americanos do século passado, escreveu a sua obra mais conhecida, "In Cold Blood". Em 1959, Truman Capote é um popular escritor de um jornal nova-iorquino, também conhecido por escrever "Breakfast at Tiffany's". Num dado dia deste ano, numa pequena cidade do Kansas, uma família de quatro pessoas é assassinada brutalmente na sua casa. Assim que leu esta notícia, Truman sabia que era sobre aquilo que queria escrever, e não iria olhar a meios para atingir esse fim, conseguindo logo "magicar" um novo estilo literário que iria criar, um romance biográfico. Desde o primeiro momento que Truman Capote pressentiu que aquela seria uma incrível obra. Partiu logo com a sua amiga Harper Lee, uma espécie de consciência ambulante de Truman (que viria a fazer um único livro, mas que foi de grande sucesso, "To Kill a Mockingbird") para a cidade onde se deu o trágico incidente, de modo a poder ver de perto o resultado do incidente, vindo a conhecer amigos das vítimas, investigadores, entre outros.
No meio de toda a excitação de Truman enquanto tenta descobrir, a todo o custo, detalhes importantes sobre o assassinato, são encontrados os dois culpados do assassinato. Por mero acaso (ou talvez não), Truman Capote depara-se com Perry Smith, um dos dois arguidos. Pelo bem do seu livro, Truman aproxima-se de Perry, com o intuito de conhecer por dentro o assassinato e os assassinos, e irá fazer tudo por preservar a sua "fonte", criando uma estranha amizade entre os dois, da qual ambos irão tentar beneficiar. Como? Não vou estragar o filme.
Este argumento desenvolve-se a um ritmo ligeiramente instável mas, exceptuando algumas cenas a meio do filme, é difícil perder a atenção, e queremos sempre saber o que se passará a seguir.
A nível técnico, o filme não é nada de outro mundo, mas cumpre a sua função. Parece que estamos de facto no final dos anos 50, mas isso também não era muito difícil.


Philip Seymour Hoffman é simplesmente fantástico enquanto encarna Truman Capote. Não só "imita" bem o escritor, com os tiques, o tom de voz e a expressão de Capote, mas também dá algo de seu à personagem, tornando-a muito fria nas alturas certas, mas também conseguindo dar sentimentos ao conhecido autor americano, sendo especialmente expressivo nos seus diálogos com a personagem Perry Smith, vendo-se claramente a sensação confusa que passa por Truman Capote nessas alturas. Não é por acaso que o óscar de melhor actor já está praticamente atribuido.
Clifton Collins Jr. é Perry Smith, o arguido com quem Capote terá um elo muito forte. Embora longe da qualidade do actor principal, o actor atribui com sucesso uma expressão perturbadora à personagem, tornando Perry misterioso q.b..
Embora com uma personagem com pouca importância para a história, Catherine Keener podia ter feito melhor enquanto Harper Lee (não se compreende a nomeação para o óscar). Demasiado calma, Catherine Keener não faz muito de memorável com a personagem.

Pontos fortes: Philip Seymour Hoffman, claro! Argumento muito bem estruturado, com uma personagem principal bem ao estilo de anti-herói. Os restantes actores cumprem bem a sua função, excepto...

Pontos fracos: ...Catherine Keener. Uma ou outra cena completamente irrelevante a meio do filme.

Nota Final: 8/10

Curiosidade:
Está já sendo feito outro filme também sobre a criação de "In Cold Blood". Desta feita chamar-se-á "Infamous" e terá Toby Jones como Truman Capote, Sandra Bullock como Harper Lee e Daniel Craig (o novo James Bond) como o assassino Perry Smith.

Tuesday, February 21, 2006

"Pride & Prejudice", de Joe Wright

Jane Austen deve andar às voltas no túmulo...mas de contentamento!

Uma agradável surpresa. Isto basicamente resume a minha opinião sobre "Pride & Prejudice". Um filme muito bom de se ver, um romance nada cansativo, uma lufada de ar fresco neste género de filmes.
Esta já deve ser a milésima vez que "Orgulho e Preconceito", uma das grandes obras de Jane Austen é adaptada para um filme. No entanto, a história de Elizabeth Bennett e Mr. Darcy, nunca deixou de ser um romance muito interessante. Num panorama cinematográfico, onde todos os romances que aparecem não são mais que comédias românticas todas iguais umas às outras, e os filmes de época tremendamente aborrecidos, uma história escrita há já mais de 200 anos consegue prender o espectador, mostrando que Jane Austen fez um romance bem à frente do seu tempo. Fosse ainda viva e teria já ganho certamente um óscar de argumentista.

"Orgulho e Preconceito" é a história de Elizabeth, uma das cinco filhas dos Bennett, uma família da Inglaterra do século XVIII, residente longe da metrópole, cuja mãe criou com um único intuito: arranjarem um marido rico para que a família não caisse em desgraça. Elizabeth, no entanto, é uma jovem muito céptica e liberal para a época e não está disposta a casar com homem algum. Elizabeth não é a típica heroína dos romances; é teimosa, revolta-se muito e não tem papas na língua. Um dia, chega à região Mr. Bingley, um homem rico e bem aparentado, por quem a irmã mais velha de Elizabeth se apaixona. Com ele vem o seu amigo, o muito sério e mais que tudo muito snob e convencido Mr. Darcy, a quem Elizabeth ganha um ódio de estimação, após tentar, sem sucesso, uma aproximação. No entanto, por muito que se tentem evitar, o destino fará com que se encontrem muitas mais vezes...
Embora um pouco previsível, o filme é bem "digerível", pois tem momentos subtis de humor (não esperem andar às gargalhadas, apenas algo para manter a boa disposição) mais ou menos nas horas certas e a intensidade dos diálogos faz com que não conseguimos deixar de estar atentos. Além disso o ambiente da época está fielmente representado pelos cenários e mesmo a banda sonora ajuda muito o filme.


A nível de representações, Keira Knightley está fantástica no papel principal do filme, mostrando-se como merecedora da nomeação que recebeu para o Óscar de Melhor Actriz. A sua Elizabeth é muito convincente, com o seu sorriso ligeiramente convencido como manda a história, a sua expressão a mostrar todo o cepticismo de Lizzie Bennett, e o seu à vontade no papel ajuda imenso à naturalidade da personagem, que dizia tudo a todos sem problemas. No papel do taciturno Mr. Darcy, está Matthew MacFadyen, uma surpresa deste filme a nível de qualidade. Se Colin Firth chegou aos olhos do sucesso através duma mini-série também baseada nesta obra de Jane Austen, tudo aponta que este seja um bom salto na carreira para este actor quase desconhecido. MacFadyen dá um ar muito misterioso a Mr. Darcy, mantendo uma seriedade muito credível e sabendo "jogar" com o seu olhar desinteressado, como se se sentisse muito superior ao que o rodeia. Das restantes representações não esperem nada acima do normal, incluindo uma Judi Dench com o tipo de papel que sempre lhe assentou bem, e que por isso mesmo nunca trás nada de novo, o de mulher poderosa e austera.

Pontos fortes: Um argumento que embora muito usado, não se tornou ainda gasto (e para quem não conhece a história nunca é tarde para a descobrir, como eu fiz). Os dois actores principais fazem incriveis representações.

Pontos fracos: Já muitos devem conhecer a história. Alguns momentos de humor são inapropriados. Os actores secundários não são nada de especial.

Nota Final: 8/10

Friday, February 17, 2006

"Brokeback Mountain", de Ang Lee

Quando ser diferente não é suficiente

O filme mais falado dos últimos tempos chegou há pouco tempo às salas de cinema portuguesas. Já todos ouviram falar da polémica da história de amor entre dois homens, tendo muitos elogiado Ang Lee por ter tido a coragem de levar para o grande ecrã algo assim tão diferente ao que Hollywood nos habituou ao longo dos anos, mas a "aventura" de Lee não se aventura o suficiente.

Brokeback Mountain conta a história de Ennis del Mar e Jack Twist, dois homens que se conhecem um dia que procuram emprego num rancho. Conseguem ambos o emprego, e vão trabalhar para a montanha que dá nome ao filme, onde passarão muitos meses sozinhos e se conhecem melhor, acabando por se apaixonar, muito contra a sua própria vontade. Após o final do seu trabalho nas montanhas, Ennis e Jack fazem todos os possíveis por continuar vidas normais, casando e tendo filhos, mas o seu elo será demasiado forte para os separar.
É basicamente isto que quem vai ver o filme sabe à partida, graças ao trailer. Infelizmente, à parte disto não há muito mais a contar do filme. Todos os acontecimentos referidos ocorrem na primeira metade do filme, onde o filme se desenrola de forma interessante até, a um ritmo que faz com que o espectador fique ansioso por saber o que se irá passar a seguir. No entanto se isto é metade do filme, isso significa que há outra metade. A segunda metade do filme é basicamente, nada. É um imenso tempo onde basicamente não se passa nada de relevante, apenas um ou outro precalço demasiado previsível. Nesta altura seria suposto vermos uma certa evolução da relação dos dois cowboys, mas em vez disso assistimos a várias conversas entre Ennis e Jack onde há imensa falta de sentimento, uma ou outra "side story" que não vai com nada e depois, metido à pressão, o final.
Tornando mais fraco ainda o argumento, é a quase animalesca relação dos dois cowboys. Somos apanhados completamente de surpresa com o primeiro "sinal" de relação (que de sinal tem muito pouco) e ao longo do filme sempre que nos querem demonstrar o amor entre os dois, simplesmente vemos os dois a se beijar loucamente, praticamente sem porquê. Falta imensa paixão ao filme, é aqui especialmente que Ang Lee falhou, pois o modo como filmou, como escolheu tornar o filme mais ligeiro para o espectador comum, faz com que este perca muito do seu potencial enquanto história de amor. Tivesse o realizador sido mais corajoso ainda, e o filme seria muito melhor. Note-se, não estou a dizer que o filme tem a pior história de sempre do cinema, simplesmente foi mal aproveitada.
Heath Ledger e Jake Gyllenhaal aceitaram corajosamente ser os cabeças de cartaz deste projecto. Heath Ledger faz o papel do pouco falador Ennis, com o sotaque adequado e uma expressão tímida na dose certa, mas acaba por exagerar na falta de interacção com as outras personagens, parecendo muitas vezes um homem estátua. Gyllenhaal por sua vez é Jack Twist, uma personagem bem mais extrovertida que Ennis, fazendo o actor um muito bom papel, com um ar mais descontraído, o olhar mais disperso, transmitindo o à vontade de Jack Twist muito bem. Anne Hathaway é a mulher de Jack, Lureen fazendo uma performance razoável, embora não se evidenciando. No entanto, a grande interpretação do filme vem de Michelle Williams, que interpreta Alma, a mulher de Ennis, com um tamanho sentimento que impressiona qualquer um com o modo como se emociona, como demonstra a sua infelicidade.
Temos assim um elenco de alguma qualidade a contrastar com o mal tratado argumento.


Pontos fortes: A performance de Michelle Williams, a cinematografia com as montanhas a dominar o filme.

Pontos fracos: A falta de paixão visível, o argumento muito mal tratado, demasiadas expectativas para um filme apenas razoável.

Nota final: 6/10

Friday, January 20, 2006

"Match Point", de Woody Allen

Crime e Castigo?

Muito se especulou sobre a nova obra de Woody Allen. Depois de Melinda & Melinda, a última de uma sucessão de comédias do conhecido realizador, que embora razoáveis, não chegavam aos calcanhares de "Annie Hall" e "Manhattan", as grandes obras de Woody, ao se saber que viria a caminho um drama, e que ainda por cima não se passaria em Nova Iorque, mas sim em Londres, criou-se muito burburinho à volta de Match Point. Tamanha quebra em relação aos filmes a que estamos habituados de Woody criou enorme expectativa sobre este filme. Mas será que satisfaz as expectativas?



A nível de representação, embora a ausência de Woody Allen como actor num dos seus filmes seja uma lufada de ar fresco, o elenco de Match Point não corresponde às altíssimas expectativas. Para um filme de actores como este, Jonathan Rhys-Meyers, Scarlett Johansson e Emily Mortimer não são bons o suficiente. Rhys-Meyers passa grande parte do filme com ar sonso, mas felizmente ganha expressão perto do final, onde a sua interpretação melhora imenso. Johansson, embora tenha conseguido uma nomeação para os Golden Globes, faz uma interpretação demasiado física da personagem, dependendo imenso do seu aspecto, não transmitindo muita profundidade a Nola, limitando-se a dar um ar incompetente à personagem. Por último, Emily Mortimer dá vida a uma Chloe demasiado ingénua (aceita-se que a personagem fosse ingénua, mas a expressão irrealisticamente sensível de Emily dispensava-se).



No entanto, o argumento acaba por salvar a pele a Match Point.
Woody Allen escreve a história de um instrutor de ténis, que encontra a mulher ideal e outra por quem fica obcecado. Isto resume grande parte do filme (embora o enredo se desenvolva sempre ao ritmo certo, não aborrecendo ninguém). Somos induzidos a esperar um grande cliché do filme até bem perto do final, onde ocorre uma reviravolta muito inesperada, e Woody põe todos na dúvida se se fará justiça ou não com várias pistas que vão surgindo (não vos vou estragar o final, mas as referências a Dostoievski, autor de "Crime e Castigo" não são por mero acaso, fazem parte da genialidade do argumento). As últimas cenas do filme são duma frieza tal, que chocarão muitos.




Pontos Fortes: Argumento brutal; excertos de várias óperas a acompanhar na perfeição, dando uma sensação muito mais trágica ao filme.

Pontos Fracos: A representação deixa muito a desejar, especialmente no que toca às actrizes.

Nota Final: 7/10